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Segurança, Defesa e Geopolítica

Ontologia exopolítica em 2001- Uma Odisseia no Espaço; Distrito 9 e Guerra dos Mundos

João Catraio Aguiar, 18 de agosto de 2025.

Como diria o ambidestro Hendrik Johannes “Johan” Cruijff: “toeaval is logisch”. Ou, em português: o acaso é lógico. Não é preciso conhecer do futebol total da Hungria de 1954 nem os meandros do Carrossel Holandês setentista para compreender que a existência plena é cambiante, e os seres humanos ou não-humanos vivenciam seus próprios jogos. Como destaca o jogador da “Laranja Mecânica”, entendendo a lógica entendemos os acasos que poderão vir no horizonte; e se novas formas de viver, de vida e de inteligência podem ter que conviver, torna-se vital a compreensão da Ontologia. Sigamos com as definições de Hilton Japiassú e Danilo Marcondes em 2001:

“ontologia (gr. to on: o ser, logos: teoria) Termo introduzido pelo filósofo alemão Rudolph Goclenius, professor na Universidade de Marburg, em seu Lexicon Philosophicum (1613), designando o estudo da questão mais geral da metafisica, a do “ser enquanto ser”; isto é, do ser considerado independentemente de suas determinações particulares e naquilo que constitui sua inteligibilidade própria. Teoria do ser em geral, da essência do real. O termo “ontologia” aparece no vocabulário filosófico por vezes como sinônimo de metafisica: “Os seres, tanto espirituais quanto materiais, têm propriedades gerais como a existência, a possibilidade, a duração; o exame dessas propriedades forma esse ramo da filosofia que chamamos de ontologia, ou ciência do ser ou metafisica geral” (D Alembert, Enciclopédia). Assim, p. ex., C. Wolff denomina seu tratado de metafisica de Philosophia prima sive ontologia (1726). Distingue-se, ainda, ontológico, que se refere ao ser em geral, de ôntico, que se refere ao ser em particular.”

A Ontologia se expressa de diversas formas e as mais sutis e criativas talvez nos interessem mais. Que Arthur Clarke e Stanley Kubrick eram gênios poucos podem contestar. Sem eles o mundo jamais conheceria HAL 9000 ou conheceria cenas irreproduzíveis; em que vislumbramos o ser e a existência. Em “2001: uma odisseia no espaço” o cenário de base apresenta humanos já calcados na criogenia, na inteligência artificial e na busca por um espaço sem fim materialmente e externamente falando. Internamente, seguiram sendo como foram. A política de fora do Planeta Terra pode ser uma exopolítica de humanos para fora da existência terrena ou a obrigatória convivência com inteligências/seres senscientes externos a ela. No caso de Clarke/Kubrick o que temos é uma ontologia do imbricamento, em que a performance da inteligência não-humana é indissociável da condição humana, o que se observa na diferença de comportamento de HAL em 2001 em comparação com 3001. A própria noção de espaço-tempo pode dificultar a manutenção de paradigmas consolidados do que poderia ser uma exopolítica ex ante avanço técnico. Na prática, a inovação vem antes da normativa dentro de uma ontologia epistémico-exopolítica kubrikiana-clarkiana.

A justaposição de uma estrutura orgânica cuja evolução é lenta, gradual e até certo ponto conhecida, mediada por fatores humanos os mais diversos com uma estrutura que ou é inorgânica ou meio-orgânica ou cuja ordem orgânica difere da humana, e pode ser desconhecida, é a essência desse primeiro modelo de ontologia exopolítica. Dele decorre uma reflexão sobre galpolítica, já mencionada anteriormente ( https://defconbr.net/2024/04/06/explorando-camadas-explicativas-de-defesa-em-duna/ ). É possível uma gradação desde aquela que meramente reflete a possibilidade de operações no espaço, como a astropolítica, passando por uma “política do convívio” em que humanos habitam o espaço e duplicam fora da Terra o que fazem nela, até chegar no que chamo aqui de Exopolítica. A última aqui segue a clássica definição de “implicações políticas da existência extraterrestre”, mas engloba também as implicações de outras formas de inteligência orgânica e inorgânica. Afinal isso não é endógeno ao humano, é exógeno, e, assim o sendo, por derivação prefixal (e lógica) também é uma exo-política.

Encontram-se condições diferente do caso Clarke-Kubrick nas outras propostas estéticas que poderiam ser destacadas a seguir. Se muito das Relações Internacionais foi alimentado por o que veio da Ciência Política e do que veio da Filosofia, tal como no debate de Alexander Wendt sobre amigos, rivais, gradações de aliados, pode-se dizer o mesmo de uma glosa exopolítica. Assim, em um viés que se embebe de Realismo e Construtivismo, poder-se-ia trazer à baila a obra de Neill Bloomkamp, cuja esposa Terri Tatchell construiu roteiros celebrados como o de “Distrito 9”. Para quem quiser conhecer melhor o Construtivismo, recomendo a leitura das obras de Wendt, para quem quiser conhecer melhor o Realismo, recomendo a leitura do artigo da Redação DefconBR de 24 de julho de 2025, e para o atual debate sobretudo Raymond Aron.
Tanto no filme que é uma releitura de trabalho anterior deles quanto em Chappie, vemos existências não-humanas incapazes de fazer frente ao que o ser humano é capaz. Extraterrestres chegam na Joanesburgo de 1982 e são confinados no Distrito 9, com circulação/contatos restritos. Da potencialidade em aberto de um contato pouco resta. O processo de guetificação é acrescido de tratamento pejorativo; são chamados de “camarões”. Para piorar, a nave que poderia levar de volta precisa de insumos tecnológicos para decolar de volta. Esse último item faz refletir que não basta que países em desenvolvimento ou emergente tenham uma tecnologia somente, pois há um contexto no qual ela se insere. Sem as mínimas condições nas cercanias da potência tecnológica construída, muito passa a ser inviabilizado. Ausente efetiva defesa, desarticulados, desamparados juridicamente, sem representação, acuados, são submetidos a experimentos sem a devida supervisão. Aqui com ou sem uma fuga final, é uma exopolítica de tensão, conflito, em que inicialmente os não-humanos são os frágeis da relação. Por fim percebemos uma análise presente nos livros e na rádio.

Radio CBS, 30 de outubro de 1938. Orson Welles ia ao ar anunciando que os marcianos tinham invadido o Planeta Terra. Quem quiser ouvir, está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Xs0K4ApWl4g&t=74s , começa com cerca de 3 minutos. Era uma adaptação do livro de 1898 “Guerra dos Mundos” de H. G. Wells, celebrado autor, que encontra no filme de Rich Lee de 2025 a mais recente adaptação. O tema é recorrente, sempre readaptado, em diversos formatos, em diferentes propostas culturais. A ontologia exopolítica aqui apresenta seres que já detêm uma capacidade inata e/ou tecnológica capaz de fazer com que o Planeta Terra se torne aquilo que talvez fosse antes do surgimento do ser humano ou em algum momento entre o surgimento da Terra e a primeira vida que conseguiu manter-se e reproduzir-se.

A proposta artística apresenta como uma supremacia tecnológica exógena pode levar a uma busca por conquista e supressão dos que não possuem essa capacidade. Surge uma inteligência superior incapaz de hibridizar-se com os que a ela parecem inferiores, uma existência motivada pela conquista mais que pela interação. Por isso Wells dá seu nome como “invasor”. A ironia apresentada é que muitas vezes a potencialidade incomensurável exógena é incapaz de adaptar-se aos desafios endógenos. Falando sem dizer, apontando sem dar spoiler, é quase o dilema do “super-homem às avessas”. O problema deixa de ser a criptonita junto dos poderes sem igual vindos de uma estrela diferente do planeta de origem, e passa a ser: como se adaptar a um planeta tão precário mesmo sendo muito fácil conquistá-lo? O paradoxo da hostilidade na ontologia wellsiana/wellesiana é que quanto mais a conquista se consolida, mais difícil fica a existência tal qual se supunha para quem buscava a vitória.

A Exopolítica enquanto investigação tem sido preenchida com debates cratológicos variados, incluindo alguns mais conspiracionistas, mas em termos de implicações de segurança, defesa e de certa forma também inteligência, pode-se dizer que a literatura (em todos os sentidos) apresenta pelo menos três perspectivas de interação: a imbricada, a que os humanos têm a primazia e a que os humanos são a parte frágil da equação. De certa maneira, novas tecnologias desdobram futuros mais complexos à luz do que tenho discutido na DefconBR. Mas isso transborda a discussão, ficando para outro artigo. Até lá, é necessário compreender o que de lógico existe no acaso, e o que de ontológico tem no que parece ser totalmente novo.

Referências
2001, uma odisseia no espaço. Direção: Stanley Kubrick. Produção: Stanley Kubrick. Culver City, CA: Metro-Goldwyn-Mayer, 1968.
AGUIAR, João Catraio. Explorando Camadas Explicativas de Defesa em Duna. Defconbr.net: Segurança, Defesa e Geopolítica. 06 de Abril de 2024. https://defconbr.net/2024/04/06/explorando-camadas-explicativas-de-defesa-em-duna/
CLARKE, Arthur. 2001: uma odisseia no espaço. São Paulo: Aleph, 2013.
DISTRITO 9. Direção: Neill Bloomkamp. Produção: Peter Jackson; Carolynne Cunningham. Burbank, CA: TriStar Pictures; Los Angeles, CA: QED International, Wellington, NZ: WingNut Films, 2009.
GUERRA dos mundos. Direção: Rich Lee. Produção: Patrick Aiello; Timur Bekmambetov. Beverly Hills, CA: Patrick Aiello Productions; Moscou & Nova Iorque: Bazelevs, 2025.
Redação DefconBR. Afinal, onde anda a prudência nas Relações Internacionais? Defconbr.net: Segurança, Defesa e Geopolítica. 24 de julho de 2025. https://defconbr.net/2025/07/22/afinal-onde-anda-a-prudencia-nas-relacoes-internacionais/
WELLS, H. G. The War of the Worlds. Londres: William Heinemann, 1898.