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Segurança, Defesa e Geopolítica

Guerra do Futuro: drones, mísseis hipersônicos e a revolução híbrida

Por Anderson Freire (*), 17 de novembro de 2025.

Os campos de batalha do século XXI tornaram‑se laboratórios de alta tecnologia. Na Ucrânia, no Cáucaso e em outros conflitos recentes, drones de baixo custo, mísseis hipersônicos e sistemas de inteligência artificial (IA) deixaram de ser experimentos e passaram a ser instrumentos decisivos de combate. O resultado é um cenário dinâmico em que a inovação evolui mais rápido que a doutrina, redesenhando a forma como exércitos atacam, defendem e interagem com civis.

Drones: a revolução low-cost

Drones comerciais modificados, produzidos em oficinas com impressoras 3D, tornaram‑se protagonistas da guerra. Em 2025, a Ucrânia enviava dezenas de milhares de VANTs por mês para missões de reconhecimento e ataque (NEWTON, 2025). Essa escala só foi possível graças a uma rede civil–militar que combinou engenheiros amadores e soldados treinados. Não se trata mais de alguns aparelhos sofisticados, mas de enxames que saturam as defesas e ampliam o alcance das tropas.

A versatilidade é tanta que esses drones transbordaram do céu para o mar. Embarcações de superfície não tripuladas desafiaram a Marinha russa ao atingir navios e instalações no Mar Negro. Como observa Newton, a resposta russa foi institucionalizar uma doutrina de integração entre drones e artilharia: imagens em tempo real permitem corrigir o tiro e reduzir o ciclo sensor‑atirador para menos de dez minutos. Alguns sistemas são usados como ferramentas de propaganda e terror, perseguindo civis em cidades ocupadas (NEWTON, 2025).

Hipervelocidade letal

Enquanto os drones multiplicam a quantidade de alvos, a corrida hipersônica visa diminuir o tempo de reação. Os mísseis hipersônicos, segundo Sayler (2025), voam a mais de cinco vezes a velocidade do som. Há dois tipos principais: veículos planadores, que são lançados por foguetes e deslizam até o alvo, e mísseis de cruzeiro hipersônicos, com motores que funcionam em regime de alta velocidade (SAYLER, 2025). Para militares americanos, essas armas permitem atacar alvos distantes e fortemente defendidos com rapidez inédita (SAYLER, 2025).

De acordo com Sayler (2025), Rússia e China estão na vanguarda, com veículos hipersônicos possivelmente equipados com ogivas nucleares, enquanto os Estados Unidos apostam em versões convencionais mais precisas. Essa diferença técnica gera debates sobre custo‑benefício e impactos na estabilidade estratégica (SAYLER, 2025). Ao comprimir o tempo de decisão em segundos, armas hipersônicas exigem novos sensores, sistemas de defesa e, sobretudo, regras claras para evitar mal‑entendidos que poderiam escalar conflitos.

IA e a singularidade do campo de batalha

O uso de algoritmos de inteligência artificial reforça a tendência de saturação e velocidade. Araya e King (2022) observam que a OTAN criou um processo para definir princípios éticos sobre o emprego de IA e abrir um debate sobre controle de armas emergentes. Os mesmos autores apontam que a combinação de IA, robótica e bancos de dados massivos está criando uma “singularidade do campo de batalha”: sistemas autônomos capazes de analisar e decidir mais rápido do que os humanos (ARAYA; KING, 2022).

Essa “cognificação” das armas faz com que as forças armadas dependam de redes seguras e dados confiáveis. Uma falha de cibersegurança ou a manipulação de informações pode gerar consequências desastrosas (ARAYA; KING, 2022). Além disso, a proliferação de enxames autônomos traz riscos de acidente em escalada e de ataques a alvos civis (NEWTON, 2025).

Internet das Coisas Militar

A digitalização chega também aos equipamentos mais básicos. A chamada Internet of Military Things (IoMT), ou Internet of Battlefield Things (IoBT), conecta sensores, roupas inteligentes, exoesqueletos e veículos em redes que compartilham dados em tempo real. Relatório da empresa Claroty observa que o Departamento de Defesa dos EUA vê nessa tecnologia uma forma de ampliar a eficiência tática (CLAROTY, 2024).

Entretanto, cada dispositivo conectado é também um potencial ponto de entrada para hackers. Proteger a IoMT requer arquiteturas de “confiança zero”, encriptação e detecção de ameaças (CLAROTY, 2024). O mesmo estudo destaca investimentos em análise preditiva de risco, como o programa IoBT REIGN, que usa IA para prever movimentos inimigos e sustentar decisões de defesa (CLAROTY, 2024). Ainda assim, a multiplicação de sensores exige vigilância constante, pois a privacidade dos soldados e a segurança dos dados estão em jogo.

Mudanças Doutrinárias

O arsenal emergente força uma revisão completa das doutrinas militares. Na guerra terrestre, enxames de drones baratos neutralizam blindados e fortificações tradicionais. Para se proteger, exércitos adotam contramedidas eletrônicas, espalham suas unidades e criam “drones isca” para enganar os inimigos (NEWTON, 2025).

No mar, o surgimento de barcos e torpedos autônomos muda a lógica do poder naval. Faulconbridge e Rodionov (2025) descrevem o torpedo nuclear Poseidon como uma mistura de torpedo e drone com alcance de 10 000 km e capacidade de gerar tsunamis radioativos; esse exemplo ilustra a possibilidade de drones submarinos armados com ogivas nucleares (FAULCONBRIDGE;  RODIONOV, 2025). As marinhas terão de pensar em contra‑medidas para veículos autônomos que se escondem nas profundezas.

Na aeronáutica, mísseis hipersônicos reduzem drasticamente o tempo de reação dos sistemas de defesa; drones de reconhecimento integrados à artilharia dispensam pilotos e tornam o ciclo de decisão mais curto (NEWTON, 2025). Além disso, multiplicam‑se projetos de aeronaves tripuladas opcionalmente e enxames de drones colaborativos.

Questões Éticas e Risco

O uso militar de IA e drones levanta dúvidas éticas profundas. Araya e King (2022) relatam que a OTAN discute princípios para assegurar que humanos mantenham o controle final de decisões letais. Há temor de que algoritmos possam interpretar dados de forma errada e iniciar um ataque sem supervisão (NEWTON, 2025). A opacidade das decisões de IA dificulta a responsabilização por violações do direito humanitário.

Outra preocupação é a proliferação de drones como vetores de armas químicas, biológicas ou radiológicas. Pesquisadores alertam que enxames autônomos poderiam dispersar substâncias tóxicas ou infectantes (MAAS; LUCERO‑MATTEUCCI; COOKE, 2023), ampliando o espectro de ameaças. O controle de dados, a transparência dos algoritmos e a manutenção de um “controle humano significativo” tornam‑se exigências centrais.

Complexidade Híbrida e o Futuro

A convergência entre guerra convencional, operações cibernéticas, propaganda e tecnologias emergentes dá origem a uma complexidade híbrida. As fronteiras entre domínios físico e digital se dissolvem: drones baratos desestabilizam combates terrestres; torpedos autônomos como o Poseidon mostram que plataformas robóticas podem transportar ogivas nucleares (FAULCONBRIDGE; RODIONOV, 2025); mísseis hipersônicos e redes IoMT aceleram e digitalizam a guerra, ao mesmo tempo em que ampliam as vulnerabilidades (CLAROTY, 2024).

Para lidar com essa realidade, as forças armadas precisam de doutrinas flexíveis, investimentos em defesa cibernética e normas éticas que acompanhem a velocidade da inovação. A sociedade e as instituições internacionais devem participar desse debate, garantindo que a evolução tecnológica não comprometa a estabilidade global.

Anderson Freire Barboza é Coronel (R1) do Exército Brasileiro, Especialista em Inteligência Artificial, Comunicação Estratégica, Operações Militares e Defesa Nacional Ex-Diretor do Curso de Gestão de Recursos de Defesa (ESG) e Diretor-Presidente do Instituto Brasileiro de Tecnologia – Business and Innovation (IBTec–BI)

Referências

  • NEWTON, Michael. How are drones changing war? The future of the battlefield. CEPA, 2025.
  • SAYLER, Kelley M. Hypersonic Weapons: Background and Issues for Congress. CRS, 2025.
  • ARAYA, Daniel; KING, Meg. The impact of artificial intelligence on military defence and security. CIGI, 2022.
  • CLAROTY. State of the Internet of Military Things (IoMT), 2024.
  • MAAS, M. M.; LUCERO‑MATTEUCCI, K.; COOKE, D. “Military Artificial Intelligence as a Contributor to Global Catastrophic Risk”. In: BEARD, S. J. The Era of Global Risk, 2023.
  • FAULCONBRIDGE, Guy; RODIONOV, Maxim. Russia tests nuclear‑capable Poseidon super torpedo, Putin says. Reuters, 2025.