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Segurança, Defesa e Geopolítica

A Inteligência Artificial, sua Cadeia de Valor e as Implicações para a Geopolítica

Coronel (R1) Anderson Freire Barboza (*)

A Inteligência Artificial (IA) tornou-se o epicentro da nova geopolítica global. Sob uma perspectiva estratégica e militar, a cadeia de valor em seis níveis que sustenta a economia da IA — desde a mineração de terras raras até o consumo final de produtos baseados em algoritmos inteligentes — merece um exame bastante minucioso, revelando como o controle de cada camada dessa cadeia traduz-se em diferentes domínios de poder: material, tecnológico, informacional e cognitivo. Tal estrutura redefine a lógica de dependência entre as nações e inaugura uma nova geografia do poder mundial.

A disputa estratégica do século

A guerra moderna não se trava apenas em campos de batalha físicos. A disputa estratégica mais decisiva do século XXI ocorre nos domínios digital e algorítmico, onde o conhecimento, os dados e os códigos tornaram-se as armas de maior valor. A Inteligência Artificial (IA), impulsionada pela integração entre poder computacional e análise massiva de dados, emerge como instrumento central de poder econômico, militar, científico-tecnológico, psicossocial e político.

A experiência no Exército Brasileiro permite observar, em campo e em gabinete, a transição da guerra convencional para o conflito informacional. Hoje, como professor e pesquisador, constato que a autonomia tecnológica é o novo parâmetro da soberania. Entender a cadeia global da IA é compreender a engrenagem que sustenta o poder das nações na era digital.

A Complexidade dos níveis nas dimensões de poder e dependência

A economia da Inteligência Artificial organiza-se em seis níveis interdependentes, que formam uma verdadeira cadeia geopolítica de valor tecnológico. Cada nível representa uma dimensão de poder e dependência estratégica.

1º Nível – Países Produtores de Minérios de Terras Raras (Base Material da IA)
Este é o alicerce físico da economia digital. Minerais como neodímio, lantânio e cério são essenciais à fabricação de semicondutores, sensores e sistemas ópticos. A China domina entre 60% e 90% da produção mundial, configurando-se como potência estruturante. Entre outros, Estados Unidos, Mianmar, Austrália e o Brasil — este último com reservas expressivas e potencial ainda subexplorado — completam o grupo estratégico. O controle dessa base mineral confere vantagem estrutural, semelhante à do petróleo no século XX.

2º Nível – Empresas de Manufaturas Tecnológicas (Infraestrutura Física de Processamento)
Aqui localizam-se as companhias responsáveis pela fabricação de máquinas de litografia, semicondutores e chips, como ASML (Holanda), TSMC (Taiwan), Samsung (Coreia do Sul), NVIDIA, Intel e AMD (EUA), além da Huawei (China).Esse setor constitui o núcleo industrial que transforma matérias-primas em poder computacional. Cada wafer fabricado é, em essência, uma peça de soberania nacional — e sua interrupção (como visto na crise dos semicondutores de 2021) pode paralisar economias inteiras.

3º Nível – Empresas de Nuvens e Data Centers (Infraestrutura Digital)
A produção e operação de sistemas de IA exigem infraestrutura de armazenamento, conectividade e energia em escala planetária. Essa camada é dominada por gigantes como Amazon Web Services, Microsoft Azure, Google Cloud Platform, IBM Cloud, Oracle Cloud e Alibaba Cloud. Essas empresas são os “provedores do espaço cognitivo global”, controlando o fluxo de dados e a capacidade de treinamento de modelos de IA. O domínio dessa infraestrutura concede influência sobre governos, corporações e indivíduos — um novo tipo de poder imperial baseado na informação.

4º Nível – Instituições de Desenvolvimento de Software e Modelos de IA (Camada Cognitiva)
Nesta camada reside o cérebro da IA. Laboratórios como OpenAI, Google DeepMind, Anthropic, IBM Watson, Microsoft AI, Stability AI e Hugging Face desenvolvem os algoritmos e modelos fundacionais que permitem simular a cognição humana. A disputa entre EUA e China é acirrada: enquanto o Ocidente aposta em ecossistemas abertos e corporativos, Pequim investe em integração estatal e militar. Essa camada define quem controla o pensamento digital global — a nova fronteira da soberania.

5º Nível – Empresas que utilizam IA em seus Produtos (Camada de Aplicação e Influência)
Aqui, os modelos inteligentes são incorporados a plataformas de consumo massivo, como Google, Meta, Microsoft, Apple, Amazon, Tesla, Adobe e Salesforce. Essas corporações transformam algoritmos em produtos, serviços e experiências, modelando comportamentos e preferências em escala global. É nesta camada que a IA se torna instrumento de poder cognitivo, capaz de moldar opiniões, mercados e democracias.

6º Nível – Consumidores Finais (Camada Social e Comportamental)
Na base da pirâmide estão os bilhões de usuários que alimentam, voluntariamente, o sistema com dados e interações. Cada busca, clique ou voz capturada reforça a retroalimentação dos modelos. O consumidor é, simultaneamente, usuário e insumo, o elo mais vulnerável da cadeia. Nesse ponto, a guerra informacional alcança sua face mais sutil: a batalha pela atenção e pela narrativa.

O Poder define quem decide e quem obedece

A economia da IA não é apenas uma cadeia tecnológica — é uma arquitetura de poder global. O domínio sobre seus seis níveis define quem produz, quem processa, quem decide e quem obedece. Assim como o domínio do mar definiu os impérios da modernidade e o do petróleo sustentou as potências do século XX, o domínio dos algoritmos e dos dados determinará os líderes do século XXI.

O Brasil, por seu potencial mineral, científico e estratégico, possui a oportunidade de ingressar de forma soberana nessa cadeia. Especial atenção deve ser dada a exploração de terras raras e a utilização de IA em seus produtos (5º Nível). Isso exige uma política de Estado que integre defesa, ciência, inovação e diplomacia tecnológica.

Como oficial que viveu o campo da guerra e hoje se dedica à ciência, afirmo que a defesa nacional do futuro será híbrida: travada por soldados e cientistas, guiada por estratégia e algoritmos. A nação que dominar essa simbiose entre poder militar e inteligência artificial poderá ter posição de destaque em uma possível nova ordem mundial.

Anderson Freire Barboza é Coronel (R1) do Exército Brasileiro, Especialista em Inteligência Artificial, Comunicação Estratégica, Operações Militares e Defesa Nacional Ex-Diretor do Curso de Gestão de Recursos de Defesa (ESG) e Diretor-Presidente do Instituto Brasileiro de Tecnologia – Business and Innovation (IBTec–BI)