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Segurança, Defesa e Geopolítica

Ártico entre rotas, clima e risco: a geopolítica em discussão

Hernani do Nascimento Pinto Marques, 13 de outubro de 2025.

Quando o gelo começa a derreter, a conversa muda de “E se?” para “Como, por quem e sob quais regras?”. O Ártico voltou a ser tema de discussão na mídia, muitas vezes por razões que parecem técnicas — como janelas de navegação, rotas mais curtas, petróleo e minerais — mas a verdadeira questão é política: quem transforma o clima em poder? Para oferecer uma resposta mais fundamentada, e não apenas baseada em manchetes, exploramos o que a comunidade acadêmica publicou entre 2000 e 2025, organizando esse debate em um mapa de palavras-chave. O que encontramos — direito do mar, governança, economia política, povos indígenas — é o fio que conecta as notícias aos bastidores institucionais ( Borgerson, 2008; Byers, 2009; Dittmer et al., 2011; Bruun e Medby, 2014; Bennett, 2015.

Mapa de palavras-chave, elaborado pelo autor.

Fomos em busca do que os pesquisadores estão priorizando, como estão interligando os temas e onde estão as mudanças de foco. A bibliometria, nesse contexto, funciona como uma ferramenta de investigação; ela organiza o cenário para que a análise seja mais fiel aos fatos e ao estado da arte.

Buscamos uma base de dados referência, o Scopus, para explorar a vasta gama de documentos oficiais, artigos e tudo que se discute sobre a geopolítica do Ártico. Depois, padronizamos as palavras-chave para unir variantes como EEZ/ZEE em “Zona Econômica Exclusiva” e evitar confusões com siglas. Utilizando o VOSviewer, criamos uma rede de co-ocorrência: cada palavra-chave se torna um nó, e a espessura das linhas indica quais termos aparecem juntos com frequência. Isso nos ajuda a identificar clusters — grupos de temas que se relacionam na literatura. Em seguida, aplicamos uma leitura de conteúdo inspirada em Bardin para construir pares-destaque (binômios que a literatura utiliza para resolver problemas práticos, como “Soberania ↔ Direito do Mar”). Por fim, escolhemos 14 obras muito citadas (co-citação) para dar suporte teórico às conexões mostradas no mapa.

O grafo revela três grupos que se tocam o tempo todo:

Direito e soberania: A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar

A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM; em inglês, UNCLOS), a disputa pela plataforma continental além das 200 milhas e o status das passagens (se são rotas internacionais ou águas “controladas”) são a base das discussões (Byers, 2009; Agnew, 1994). Regras sem capacidade se tornam apenas desejos; capacidade sem regras gera atrito — o mapa conecta “soberania” a “governança” e “segurança” por uma razão.

Governança e coordenação: O Conselho do Ártico como o principal fórum de cooperação

O Conselho do Ártico se destaca como o principal fórum de cooperação, junto com políticas ambientais recentes que realmente mudam o jogo: a proibição do óleo combustível pesado (HFO) em águas árticas, decidida pela Organização Marítima Internacional (OMI), e a moratória de pesca no Oceano Ártico Central por 16 anos (Acordo CAOFA) mostram que a “janela do gelo” não é um passe livre — existem riscos, seguros e questões de reputação a considerar (IMO, 2021; CAOFA, 2021).

Economia política e grandes potências: A China e a narrativa da “Rota da Seda Polar”

A China e a narrativa da “Rota da Seda Polar” aparecem ligadas a dados, infraestrutura e financiamento; a Rússia está conectada à Northern Sea Route (NSR) e a regras nacionais (aviso prévio, piloto a bordo) que regulamentam o acesso, mesmo quando a natureza “abre” conforme Bennett, 2015; Åtland, 2011; SCIO/China, 2018; Arctic Today, 2019. Ao mesmo tempo, a literatura discute sanções, seguros e investimentos como a face geo-econômica que determina quem navega, com o quê e para qual propósito (Zellen, 2009 e Borgerson, 2008).


Par conector
O que resolve (em termos práticos)Exemplos do corpus
Soberania ↔ Direito do Mar (CNUDM/UNCLOS)Define quem pode explorar além das 200 milhas e que tipo de passagem uma rota é — organiza concessões, presença e disputaByers (2009); Agnew (1994)
Regra nacional ↔ Janela de gelo (NSR)Mostra que acesso depende de norma: avisos, piloto, dados; janela natural ≠ janela jurídicaÅtland (2011); Arctic Today (2019)
Geopolítica ↔ Geo-economia (sanções/seguros)Explica por que crescem fluxos de destino (energia/mineração) e contêiner segue marginalBorgerson (2008); Zellen (2009)
China ↔ Rota da Seda Polar (dados & infraestrutura)Enquadra a disputa por observação, portos, cabos e transparência de dadosBennett (2015); SCIO/China (2018)
Ambiente ↔ Operação (HFO/pesca)Redesenha custo e reputação: combustível proibido e pesca contida exigem planejamento mais conservadorIMO (2021); CAOFA (2021)
Povos indígenas ↔ LegitimidadeReduz litígio e atraso com consulta e repartição de benefícios — condição de viabilidadeAHDR (2004); ACIA (2004)

Clima não decide sozinho — o capital e as instituições filtram o possível.

Parte da imprensa adora a ideia da “corrida ao Ártico”. No entanto, a literatura é mais cautelosa: o gelo pode abrir caminhos, mas é o direito e a capacidade do Estado que decidem se esse caminho se torna uma rota (Byers, 2009; Agnew, 1994). A proibição do HFO e a moratória de pesca são exemplos de normas que se transformam em custos operacionais — não existe uma rota “barata” sem conformidade (IMO, 2021; CAOFA, 2021).

Soberania sem presença é frágil; presença sem coordenação é cara.

O grafo conecta “soberania”, “governança” e “busca e salvamento” por uma razão bem simples: monitorar, regular e responder é o que realmente dá substância à autoridade (Åtland, 2011). Por isso, a ênfase em Serviço de Tráfego de Embarcações (VTS), Sistema de Identificação Automática (AIS) e protocolos de busca e salvamento — sem dados que possam ser compartilhados, nem seguro nem cooperação conseguem se sustentar.

Geo-economia como freio de fantasia.

Nossos pares explicam por que o tráfego de destino (como carregamentos de gás natural liquefeito, GNL, e mineração) avança mais do que o de contêineres: a tolerância à variabilidade e o licenciamento são mais importantes do que apenas a distância (Borgerson, 2008; Zellen, 2009). As sanções e os prêmios de seguro, que a literatura menciona, precificam as escolhas políticas — e é por isso que a regra nacional na NSR e a conformidade ambiental aparecem tão próximas no mapa.

China e a política dos dados.

Ao se definir como “Estado próximo ao Ártico”, a China vê a região como um laboratório de conectividade (portos, ciência, observação) — a “Rota da Seda Polar” é tanto uma imagem quanto um plano (Bennett, 2015; SCIO/China, 2018). No nosso grafo, “China/BRI” se conecta a “geoeconomia” e “governança”: quem estabelece o padrão de dados (coleta, processamento, compartilhamento) tende a ditar os custos e a confiança para operar.

Legitimidade não é adereço — é infraestrutura política

Relatórios de referência nos lembram que ignorar os povos indígenas aumenta os riscos sociais, jurídicos e reputacionais (AHDR, 2004; ACIA, 2004). Em projetos no permafrost, uma licença apressada vale menos do que um acordo sólido: atrasos crônicos e disputas judiciais custam mais caro do que a prevenção. Em suma, o mapa e os pares mostram onde a política se encontra com a operação: no direito que se aplica, nos dados que fecham as contas e na licença social que evita a paralisia.

Conclusões

A geopolítica do Ártico, entre 2000 e 2025, se assemelha a um circuito: a física abre as possibilidades, o direito estabelece o que é permitido e a capacidade (tanto estatal quanto financeira) transforma o que é permitido em algo viável. Nossa análise bibliométrica — que examina o que realmente tem sido priorizado na academia — ajuda a dissipar a neblina das narrativas simplistas. Para os próximos anos, três verbos resumem o que devemos acompanhar: ver (dados confiáveis), governar (normas que se tornam práticas) e operar (com legitimidade). Aqueles que conseguirem integrar esses três aspectos reduzirão a incerteza — e o custo político — de suas decisões.

Para mais insights como esse siga o instagram @geopolitica.em.dados

Referências

Livros e relatórios
AHDR – ARCTIC HUMAN DEVELOPMENT REPORT. Arctic Human Development Report. Akureyri: Stefansson Arctic Institute, 2004.
ACIA – ARCTIC CLIMATE IMPACT ASSESSMENT. Impacts of a Warming Arctic: Arctic Climate Impact Assessment (Overview Report). Cambridge: Cambridge University Press, 2004.
ANDERSON, Alun. After the Ice: Life, Death, and Geopolitics in the New Arctic. New York: Harper, 2009.
BYERS, Michael. Who Owns the Arctic? Understanding Sovereignty Disputes in the North. Vancouver: Douglas & McIntyre, 2009.
ZELLEN, Barry Scott. Arctic Doom, Arctic Boom: The Geopolitics of Climate Change in the Arctic. Santa Barbara: Praeger, 2009.
Artigos
AGNEW, John A. The territorial trap: the geographical assumptions of international relations theory. Review of International Political Economy, v. 1, n. 1, p. 53–80, 1994.
ÅTLAND, Kristian. Interstate relations in the Arctic: an emerging security dilemma? Polar Record, v. 47, n. 2, p. 191–204, 2011.
BENNETT, Mia M. How China sees the Arctic: reading between extraregional and intraregional narratives. Geopolitics, v. 20, n. 3, p. 645–668, 2015.
BORGERSON, Scott G. Arctic Meltdown: the economic and security implications of global warming. Foreign Affairs, v. 87, n. 2, p. 63–77, 2008.
BRUUN, Johanne M.; MEDBY, Ingrid A. Theorising the Thaw: Geopolitics in a Changing Arctic. Geography Compass, v. 8, n. 12, p. 915–929, 2014.
DITTMER, Jason; MOISIO, Sami; INGRAM, Alan; DODDS, Klaus. Have you heard the one about the disappearing ice? Recasting Arctic geopolitics. Political Geography, v. 30, p. 202–214, 2011.
Documentos oficiais / acordos / notícias
INTERNATIONAL MARITIME ORGANIZATION (IMO). Resolution MEPC.329(76): Prohibition on the use and carriage for use as fuel of heavy fuel oil by ships in Arctic waters. London: IMO, 2021.
AGREEMENT to Prevent Unregulated High Seas Fisheries in the Central Arctic Ocean (CAOFA). 2018. (Entrada em vigor: 25 jun. 2021).
STATE COUNCIL INFORMATION OFFICE OF THE PRC (SCIO). China’s Arctic Policy (White Paper). Beijing, 2018.
ARCTIC TODAY. Russia sets out stringent new rules for foreign ships on the Northern Sea Route. 8 mar. 2019.