11 porquês de o Terrorismo ser um fractal violento cujo entendimento se faz necessário.
João Catraio Aguiar, 12 de setembro de 2025.
1 O Terrorismo por vários motivos tem uma “definição em aberto” até hoje.
Sabemos que ele envolve finalidade, ameaça ou ação com violência, repercussão psicológica que em geral é o medo, há uma identificação individual e/ou coletiva, envolve alto grau de imprevisibilidade, geralmente é não-estatal, mas pode ser subnacional e estatal. Além disso, pode ser cometido de variadas maneiras, algo que é discutido em obras culturais há décadas. O mundo dos quadrinhos tem pelo menos cinco vilões que combatem o Batman e que usam de modalidades de terrorismo. O Pinguim trabalha com narcoterrorismo, Ra’s al Ghul com ecoterrorismo e atentados individuais, Espantalho com terror químico, Bane com atentados com bombas e outros tipos, e Coringa com todos os tipos possíveis. Como classificar todos eles de forma correta e ao mesmo tempo abarcar as diferenças de atuação? Esse dilema classificatório não fica restrito aos fãs de Batman ou da DC, sendo encontrado também no universo dos intelectuais e pesquisadores que se dedicam ao terrorismo.
2 O Terrorismo evoluiu em “ondas” até aqui, e podemos dizer que seguirá sendo assim, uma sucedendo a outra.
Cada onda está associada com uma forma de execução, com perfil de perpetradores, e com uma geração, girando em torno de 40 a 60 anos. A seguir, um resumo criado a partir do estudo muito citado de David Rapoport (2004):
| Onda | Período Temporal | Ideologia Predominante | Táticas mais recorrentes |
| Anarquista | 1878-1919 | Anarquismo, populismo russo | Assassinato |
| Anticolonial | 1920s-1960s | Nacionalismo, anticolonialismo | Guerrilha, violência seletiva |
| Nova Esquerda | 1960s-1990s | Marxismo, Nova Esquerda | Sequestro de pessoas e de veículos, bombas |
| Religiosa | 1979 – | Extremismo Religioso | Ataque suicida, eventos de baixas massivas |
Cada época tem, portanto, um perfil e isso reflete no modus operandi em tempos prévios e posteriores aos eventos planejados. Além disso, como cada época tem uma ideologia que se radicaliza em função da predominância ideológica de outra(s), é difícil dizer o que vai de fato ser a próxima onda terrorista, uma vez que não se sabe ainda o que predominará. Indica-se que haverá por volta de meados do XXI uma exaustão do modelo de extremismo religioso, que, provavelmente, será mais um elemento regionalizado, ou pontual quando comparado com o caráter internacional dos anos 1980/1990. Todavia, ainda é cedo para definir qual será a próxima onda.
3 O Terrorismo é um fenômeno encontrado ao longo da história, sendo difícil dizer que ele deixará de existir, e, ao mesmo tempo, de prever os futuros tipos.
O terrorismo já existia como meio de antecipação de ataques em diversas sociedades. De forma lógica, pode-se dizer que quando o Homo Sapiens Sapiens começou a se organizar para policiamento local ou para guerra com outros grupos, já existiam táticas não-convencionais. Incomum o suficiente para enquadrar-se fora do perfil básico de uma tribo, de um reino ou de um império, e ao mesmo tempo exequível.
Observa-se que a Hélade clássica tinha combatentes que antes das atividades de hoplitas já criavam o caos nas cidades a serem atacadas, com fogo, agressões físicas, ações para agir sobre o moral e sobre o psicológico. Sobre isso, é interessante consultar as reflexões de Xenofonte, ou refletir sobre como o não-helênico Xerxes tratou os que miravam o Mar Egeu. Isso abarcava um plano maior que o das tropas, agindo sobre a população como um todo. Similar pode ser dito sobre a Roma Antiga, na qual “assassinatos seletivos”, incêndios debatíveis, operações contra inimigos repletas de brutalidade, e outros fatos históricos eram já indícios de que no futuro poderiam existir pessoas/grupos mais atinentes ao perfil ditatorial a praticar terrorismo de estado.
Isso foi feito de forma “moderna” com a Revolução Francesa, com teóricos como Robespierre ou Marat, engenhosidades como mudanças de palavras e calendários, tecnologias como a guilhotina, e uma sede de poder incomensurável, só parada pelo “general inverno” e pela rede de conservadores antirrevolucionários. Após esse momento, já ao longo do século XVIII e XIX modalidades variadas de atos terroristas ocorrem sobretudo em ambiente urbano associados com ideologias políticas.
Por todo o XIX, a principal corrente política a praticar foi o Anarquismo. Quem quiser compreender como ocorriam essas ações, basta ler “Os Demônios” de Fiodor Dostoievski. É evidente que assim como Lênin, Stálin e Trotski tinham visão diferente sobre o comunismo, os anarquistas mais propensos a esses atos contrastavam com mutualistas como Peter Kropotkin ou Pierre-Joseph Proudhon. Com isso em mente, podemos ir ao ponto seguinte.
4 Afirmar sobre as origens (e demais temas do) terrorismo depende da concepção teórica.
Quando se analisa o terror, é necessário pensar que existem pelo menos quatro possibilidades. A que eu chamarei de actancial/pontual extrai os principais pontos de um único caso; sendo ele um estudo de caso que abre para comparações ou aprofundamentos – mais comum em trabalhos científicos – ou seja ele um estudo de caso repleto de detalhes e floreios – mais próximo do midiático, biográfico ou literário – tem um volume elevado de trabalhos disponíveis.
A que chamarei de perspectiva psicológica foca nos motivos internos de quem faz os atos, a que se somam trabalhos como o de John Horgan ou de Jerrold Post. Há ainda uma possibilidade de mobilização de teóricos de Psicologia Social ou de Psicanálise para uma fundamentação teórica embasada.
A que chamarei de sociológica é a mais centrada em fatores da sociedade na qual os perpetradores a planejam em interligação com aquela em que ocorrem os fatos. Pode estar junto da perspectiva econômica ou não. Recentemente, por um lado crescem análises sociais em conexão com filiação partidária e/ou com conexões de grupos políticos internacionais, e, por outro lado, crescem análises técnicas socioeconômicas centradas sobretudo no financiamento do que é feito.
Há ainda uma análise intangível, com aspectos filosóficos como fez brevemente Jean Baudrillard, com aspectos normativos/jurídicos como pode-se perceber com especialistas em Direito, com aspectos mais voltados às categorias, mais tipológicos.
Nenhuma das quatro modalidades analíticas têm um consenso sobre como deve ser feita a análise do Terror.
5 A extensão de atuação varia conforme o objetivo buscado, mas também de acordo com fatores geopolíticos.
Quando falamos sobre a Cabanagem que levou a 40 mil óbitos dentre uma população no Grão-Pará brasileiro oitocentista de cerca 100 mil habitantes, estamos falando de um fenômeno local. Sabe-se que ali os cabanos eram apoiados pelos franceses, e em parte do tempo portugueses e britânicos estiveram contra os revoltosos que cometiam atos de terrorismo. Contudo, não “escalou”. Ficou bem circunscrito.
Em um escopo um pouco mais complexo foram as atividades do IRA (Exército Republicano Irlandês) e as do ETA (Pátria Basca e Liberdade) cujas atividades extrapolavam o escopo local, dadas as parcerias internacionais deles. O primeiro grupo pode ser visto em atuação na série Peaky Blinders, de Netflix e BBC. O segundo, em séries tais como Patria, da HBO. No caso do IRA, pode-se ver, na série citada, a proximidade com o crime organizado, e, ambos, com circunstâncias e grupos da política nacional. Portanto, passa a ter um escopo mais amplo que os cabanos.
Mais amplas são as lutas de descolonização das décadas de 1960 e 1970. Observava-se o entrecruzamento da Guerra Fria e o fornecimento de insumos para os atos, vindos ora de um dos lados da bipolaridade, ora do outro. De certa forma, pode-se dizer que desde essa época surgem os mercenários e a privatização da guerra. Que são a feição “legal” da inserção privada sobre algo que até os anos cinquenta mais ou menos era majoritariamente público. O problema é que desde os anos 1970, 1980, o que cresceu mais foi a feição “ilegal” dessa atividade privada, conivente com regimes fora do compasso do aceitável no sistema internacional, e todos unidos e “azeitados” por uma correia de transmissão de recursos “subterrâneos”.
Logo, em termos geopolíticos, desde o fim da Guerra Fria, emerge uma rede de pessoas invisíveis ao radar dos estudiosos e quase sempre desconhecidos dos funcionários públicos mais desavisados. Para além da mera corrupção, eles “mexem as cordas” dos conflitos, podendo ser os mentores de atividades terroristas. Seja de forma direta ou indireta. Insights nesse sentido podem ser observados em filmes como “Senhor da Guerra” e “Sicario”. A princípio eles não têm pretensões globais, mas sua atuação é quase sempre envolvendo mais de um continente. A ausência de fronteiras para sua atuação interliga-se com questões que perpassam interesses estatais e atividades de inteligência, como se percebe em “007 contra Spectre”.
Por fim, há os grupos terroristas que abertamente buscam uma ação planetária, arrogando para si a missão de destruir todos aqueles que a eles se opuserem. O caso mais famoso foi da Al-Qaeda, que podemos conhecer melhor em filmes como “A hora mais escura”, “11 de setembro: No Gabinete de Crise do Presidente”; “Fahrenheit 11 de setembro”; e na série compilada a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=LoOl2enPw94
No caso citado, eles decidiram que obrigariam o mundo inteiro a seguir o islamismo tal como Bin Laden entendia como correto. Por conta disso, tiveram uma série de parcerias nacionais (nas cercanias de onde surgiram) e internacionais. Aproveitando de um cenário que já era de dissolução do poder estatal, o contato de Talibãs, de ação local, com Al-Qaeda, de atuação internacional, mais apoios regionais fez crescer a letalidade e a extensão de atuação. O fato do líder ser alguém que vinha de uma família de recursos, empreiteiros do Oriente Médio, facilitou o início; mas jamais determinaria o quão longe ele foi, pois isso dependeria de articulações. Esse é um caso que demonstra que terrorismo pode ser planejado em escala global. Era de se esperar uma reação como a Guerra ao Terror. A última marcou o mundo nas décadas de 2000 e de 2010, mas com a chegada de novos fatores desestabilizadores em fins da década de 2010, pode-se dizer que esse momento acabou. O que jamais deixou de existir foi o terrorismo, até porque, como já é possível depreender da leitura até aqui e ficará mais óbvio com os próximos parágrafos, é que ele não tem rosto e nem perfil.
6 Antigos grupos terroristas podem fundir-se, dividir-se e operar em parceria.
Tomemos o caso de “A Rede” ou “A base da guerra santa”, ou ainda, conhecida no Ocidente como Al-Qaeda. Desde uma base de compreensão ortodoxa, sunita, salafista, uaabita, e fundamentalista, tinha originalmente dois alvos principais: os infiéis e os apóstatas. Enquanto os segundos compreendiam todos os muçulmanos que não seguiam a fé tal como a “rede” pregava, os primeiros compreendiam todos os que sequer seguiam o islã. Dentre os que eram mais odiados estava os Estados Unidos da América por representar valores opostos aos defendidos pela Al-Qaeda, tais como a liberdade individual e de culto, a liberdade política, as produções culturais com perfil ocidental, entre outros elementos. Não eram os únicos inimigos a serem combatidos.
A origem do “sustentáculo” ou “alicerce” se deu com a Direção de Serviços Afegãos (MAK) criada em 1984, que originalmente combatia os soviéticos e contratava combatentes da jihad, os mujahideen nos anos 1980. As principais parcerias da MAK eram agências de inteligência, a Jihad Islâmica, os partidos afegãos Jamiat, Frente Nacional Islâmica Afegã, HIK e HIA. A partir disso, Osama Bin Laden, principal mentor, deu andamento ao seu sonho de criação de uma Frente Internacional “pela Jihad contra judeus e cruzados”. Com ela, fez os atentados às torres gêmeas, World Trade Center, e ao Pentágono em 11 de setembro de 2001. Não foi o primeiro nem o último atentado. Com a operação Lança de Netuno, executada pelas forças armadas dos Estados Unidos em 2011, caiu a principal liderança e o “alicerce” começa a desabar. Cada vez menos relevante frente a outros grupos, chegou a executar os atentados contra o jornal de esquerda Charlie Hebdo, em 2015. Depois disso, progressivamente passou a ser uma das facetas do Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL) cuja finalidade é criar um Califado global, também de orientação sunita.
Da mesma forma como o MAK tinha várias parcerias, e isso facilitou a formação da Al-Qaeda, pode-se dizer que o ISIL tem criado muitas parcerias. O principal foco é o combate ao Ocidente, não encontrando-se mesmo peso das atividades fora das zonas Ocidentais e Oriente Médio. Ao ISIL integrou-se por exemplo o Boko Haram, cuja origem está em Chikun na Nigéria. Ambos professam a o antissemitismo, a cristofobia e demais características já presentes na Al-Qaeda.
7 O impacto interno de um atentado varia, assim como a resposta ministerial.
No mundo das políticas públicas, cada pasta tem uma linguagem muito própria. Outrora estive investigando gestões de Getúlio Vargas, que me permitiu uma melhor compreensão desse tema. Tanto a ruptura quanto a manutenção de políticas de Estado foram tematizadas no livro “Políticas Públicas do Brasil na Era Vargas (1930-1945)” de 2018, quanto no livro “Kirimáua Angaquáugatú, a resiliência harmônica na política externa brasiliana (1961-1964)”, de 2021.
Portanto, é tema que me fascina. Contrafactuais também, assim como momentos de livre pensamento, raros em alguns ambientes e abundantes na literatura de ficção científica. Quero propor uma reflexão conjunta.
Imagine que um atentado ocorre no país “Letra Alfa”. Há em Letra Alfa variados ministérios. Vamos pular o Ministério da Justiça que estará mais bem representado no item 8.
O Ministério dos Alimentos ficará ocupado em entender, tal como o Ministério da Infraestrutura e Transportes se ele gerou impacto logístico, e o quanto isso vai interferir na rotina normal. Além disso as partes interessadas e em interlocução com eles vão, certamente, cobrar um posicionamento.
O Ministério da Educação averiguará se há necessidade de ordenar suspensão de atividades educacionais no dia seguinte, ou ao longo da semana, e em que local isso será feito. Provavelmente terá de entrar em contato com instituições públicas e privadas de ensino e com governos estaduais e municipais, dependendo do quão nocivo foi o ataque.
O Ministério da Economia terá maior atenção do quanto aquela ação impactou nos negócios em geral, tanto em termos de investimentos quanto em termos de vida econômica regular. Algo que o Ministério de Indústria, Comércio e Tecnologia fará também. Enquanto o primeiro terá de pensar em ações emergenciais para evitar crises locais ou nacionais econômicas e com isso articular ações conjuntas com outros ministérios, o segundo perceberá o quanto o atentado pode ter afetado o clima de negócios, os investimentos em curso, os contratos, como estão os produtores e seus produtos.
O Ministério do Trabalho vai observar o quanto isso pode ter afetado a vida dos que têm empregos na região, seja os formais ou informais, refletindo meios de assegurar que eles mantenham seus postos de trabalho. Vai verificar se existe necessidade de ampliação de vagas de trabalho para reconstrução de áreas afetadas com o atentado.
O Ministério da Energia vai observar o que foi afetado no atentado, e se há necessidade de realocação de recursos energéticos ou se há necessidade de suspensão de atividades regulares, como a da mineração, em função do que ocorreu.
O Ministério da Saúde observará se no atentado ocorreu alguma liberação de elementos que possam fazer mal à saúde humana e animal. Perceberá se há possibilidade de ocorrer aumento de determinadas crises sanitárias e o que pode ser feito para evitar que as consequências do atentado escalem.
O Ministério da Defesa e o Ministério das Relações Exterior, por motivos variados, estarão atentos a como os demais países estão reagindo ao atentado. Possibilidades de articulação entre os países serão ensaiadas.
O Ministério da Casa Civil (ou secretário) vai organizar encontros do Chefe de Governo e/ou do Chefe de Estado com os membros do Parlamento, a fim de observar necessidades de cada região afetada ou da região afetada. Observando o bem comum, entenderão maneiras, que podem envolver liberação orçamentária extra, votação de emendas, emprego de emendas individuais, entre outras ações.
Isso desde o prisma do Executivo. Os dois outros poderes podem também intervir para fazer com que atentados terroristas sejam evitadas no futuro, ou que a sociedade e o Estado estejam, ambos, contemplados integralmente na justa solução.
8 O terror abre dilema(s) de segurança nacional, orgânica, pública e privada.
É muito discutido o dilema que o terrorismo impõe aos operadores de segurança, sejam eles quais forem. Não só o trabalho policial como o de vigilantes e trabalhadores de empresas mistas pode envolver o ato de revistar alguém. Recentemente, o emprego de instrumentos tecnológicos que fazem esse serviço tem sido crescente. É evidente que se torna um caso de sucesso quando o detector de metais revela uma faca que estava escondida, uma pistola ou um revólver, antes que uma pessoa entre em um avião comercial cheio. Todavia, há quem se incomode de sua privacidade individual ser devassada pelos que passam a saber tudo que está na mala. Esse dilema entre o livre exercício profissional com uso de tecnologia de um lado e os defensores incondicionais da privacidade individual de outro lado gera intensos debates no meio da segurança. Em termos de atividade terrorista, a defesa da privacidade é conveniente, sendo, portanto, inconveniente para os que atentam ter contra si tecnologias que revelam intenções que eles querem esconder. Por outro lado, impõe-se a relevância ética e moral no trabalho de quem lida diretamente ou indiretamente com a segurança.
Outro dilema destacado hoje é entre a realidade em si e a narrativa que surge. Sabemos que às vezes um time é celebrado não pela sua vitória, mas por sua performance. Há casos em que todos se lembram de grandes jogadores de futebol ou grandes equipes que nada ganharam de título, e aqui entra a força da narrativa. Entra também o impacto dessas equipes no imaginário dos torcedores. Assim sendo, quem tem um lado e torce por ele tende, por uma questão lógica, a perceber o mundo de uma maneira bem diferente daquela que existe “independente da torcida”.
De um lado, temos Nelson Rodrigues nos lembrando que para entender as coisas é preciso conhecer “A vida como ela é”. De outro lado, temos John Ford em seu filme “O Homem que Matou o Facínora” com a célebre frase: “Aqui é o Oeste, senhor. Quando a lenda vira o fato, publique-se a lenda.”.
Um pouco de Nelson Rodrigues está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=BAIU3tOUj_E
Um pouco de John Ford, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=363ZAmQEA84&t=2s
Para quem quiser conhecer a frase no original, começa no segundo 44. Recomendo que encontre o filme e veja. A princípio, ele encontra-se acessível no Amazon Prime Video, na Apple TV e na Globoplay.
O “torcedor” e o que publica algo diferente do fato são, ambos, exemplos do polo oposto de quem relata os fatos “independente da torcida” e observando “a vida como ela é”. O problema é que dentro da guerra de narrativas e de imaginários em aberto fica difícil compreender a linha fronteiriça entre ambos.
Dessa maneira, os dilemas existem. Nem sempre eles aparecem de forma óbvia no cotidiano. São os momentos mais intensos de insegurança que ilustram a crucialidade dessas ponderações. As condições nas quais a discussão se dá depende de como o país está, de quais temas estão “em alta” na sociedade, de como os grupos que lidam com segurança pensam sobre o tema, de como grupos de pressão atuam, de como os partidos se posicionam, entre outros fatores. Logo, a forma como um atentado terrorista afeta a segurança depende muito de contexto, e a forma como os ministérios reagirão dependerá dos contextos. O que nos leva ao próximo ponto.
9 Sem “emoções” e sem “mídia” é impossível o terror; mas o que é “emoção” e o que é “mídia”, ou como deveriam estar se comportando?
Há um debate entre especialistas de terrorismo de que sem medo não há terror. Eu abriria mais o escopo e diria que sem emoções/sentimentos seria impossível o terror, até porque ele demanda uma série de ações e reações em cadeia para alcançar os efeitos. Quando o humorismo descontrói o terror, como no episódio “Osama bin Laden Has Farty Pants”, de South Park (acessível no Paramount+), fica difícil levar a sério as ações dos que a fazem. Assim, existe todo um repertório que obriga as pessoas a se envolverem com os atos e os extremistas de uma maneira que leve de fato a uma situação anômala. Caso contrário, tudo segue como sempre foi.
Igualmente podemos observar a mídia. Imagine um enorme atentado terrorista. Destruindo quarteirões e mais quarteirões de uma cidade. Mas, por algum motivo, a cidade é pouco habitada e nenhum dos habitantes deseja noticiar o ocorrido. Como poderão dizer que foi um atentado terrorista?
Agora imagine um cenário quase oposto. Um carro com um spray suspeito passeia despejando algo nas pessoas. Se isso fosse uma circunstância qualquer, nenhum problema existiria. Mas no caso do atentado malsucedido de Aum Shinrikyo em 1993, foi exatamente o que foi feito, com toxina botulínica; em nada resultou e teve muita repercussão midiática. Somente em 1995 eles conseguiram resultados com o gás sarin. Como em 1993 foi em local muito urbanizado do Japão, teve repercussão, a mídia estava atenta ao que estava ocorrendo. Sem cobertura, é impossível a escalada que os terroristas desejam.
Outros exemplos relevantes foram dos narcoterroristas do Cartel de Medellín, o de Pablo Escobar, que desejava assassinar o candidato à presidência César Gaviria. Gaviria não estava no Voo Avianca 203 de 27 de novembro de 1989 – que levou a óbito 114 pessoas através da bomba – e venceu a eleição. Com o tempo e com apoio, desmantelou o poderio de Escobar. Quem quiser ver uma versão sobre esse cartel e sobre o Cartel de Cali, pode assistir à série Narcos, da Netflix.
10 Consequências dos atos, à luz de tratados & “consequências das consequências”.
Antes de 11 de setembro de 2001, o mundo vivenciou os anos 1980 e 1990 em que o terrorismo era mais um tema da América Latina, do Oriente Médio e regiões africanas do que efetivamente algo com pretensões globais.
Já existia em 1991 muitas convenções e protocolos atinentes ao tema de forma direta e indireta, os quais listo abaixo, sem ser exaustivo.
- Convenção relativa às infrações e outros atos cometidos a bordo de aeronaves (1963);
- Convenção para a repressão ao apoderamento ilícito de aeronaves (1970);
- Convenção para a repressão ao apoderamento ilícito de aeronaves (1970);
- Convenção para a repressão aos atos ilícitos contra a segurança da aviação civil (1971);
- Convenção para prevenir e punir os atos de terrorismo configurados em delitos contra as pessoas e a extorsão conexa, quando tiverem eles transcendência internacional (1971);
- Convenção sobre a prevenção e punição de crimes contra pessoas que gozam de proteção internacional, inclusive agentes diplomáticos (1973);
- Convenção Internacional para a Salvaguarda da Vida Humana no Mar, SOLAS (1974);
- Convenção internacional contra a tomada de reféns (1979);
- Convenção sobre Proteção Física do Material Nuclear (1980);
- Convenção para supressão de atos ilícitos contra a segurança da navegação marítima (1988);
- Protocolo para Supressão de Atos Ilícitos contra a Segurança de Plataformas Fixas localizadas na plataforma continental (1988);
- Protocolo para a repressão de atos ilícitos de violência em aeroportos que prestem serviços à aviação civil internacional (1988);
- Convenção sobre a marcação de explosivos plásticos para fins de detecção (1991)
Aqui o que me interessa destacar é que se eles direta ou indiretamente apontam para tipos de terrorismo diferentes, significa que antes das convenções e protocolos citados existiam muitas possibilidades de execução do mesmo.
Os acordos multilaterais citados reforçam uma governança global sobre o tema, ao qual apontava para os extremistas sabotadores da ordem uma necessidade de revisão de seus procedimentos. Uma das modalidades de sofisticação foi aproximar-se de grandes grupos políticos e econômicos através de “toma-lá-dá-cá”, em que todos saíam ganhando. Uma das melhores formas de se ganhar com o terrorismo foi com a lavagem de dinheiro, através da qual o volume acumulado ia passando por instituições teoricamente idôneas e permitiam as atividades. Para além da cumplicidade, pode-se dizer que existiam verdadeiros sistemas operando à margem da legalidade. Aqui facínoras e subversivos marcharam juntos, e uma relevante consequência de surgir uma governança global sobre o terror ao longo do ciclo 1960-1990 foi o surgimento de redes de economia bandida, tema muito estudado pelo escritor venezuelano Moisés Naím em seu livro “Ilícito”.
Ocorre que existem reações às “consequências das consequências”, e surgem convenções e protocolos, tais como: Convenção Internacional para Supressão do financiamento do terrorismo (2001); Código Internacional para Proteção de Navios e Instalações Portuárias (ISPS Code) que revisava e expandia a SOLAS (2004); Convenção Internacional para Supressão de atos de terrorismo nuclear (2005); Convenção interamericana contra o terrorismo, Convenção de Barbados (2005); Protocolo SUA (2005).
Espera-se que exista um rearranjo em função das novas formas de repressão, que têm sido, em geral, bem-sucedidas, dada a diminuição no volume ou incapacitação de projetos de vitória terrorista global. Alguns indicam uma maior proximidade entre extremistas/sabotadores e malfeitores, facínoras festejando juntos a derrocada da ordem.
11 Com novas tecnologias surgem novos terrorismos.
Conforme as infraestruturas (críticas ou não) ficam mais dependentes da internet, da internet das coisas, e de demais tecnologias, o ataque terrorista perde a necessidade de materialidade explícita. Isto é, enquanto os anarquistas do XIX tinham que por esforço pessoal ir até o local onde estava a liderança pública, e eliminá-la. Diferentemente, os que atuam com ataques cibernéticos podem desmontar enormes infraestruturas estando a quilômetros de distância do ponto de ataque, dada a relativa não-fisicalidade da internet.
Desde 2014 há uma subdivisão interna do Estado Islâmico, a Divisão de Hackers chamada de Cyber Califado Unido. Eles possuem uma lista de alvos a serem neutralizados, atuam com recrutamento, hackeam redes sociais, fazem doxing e ataques de negação de serviço (DDOS). Essa é a atuação já conhecida. Outras possibilidades de grupos tal como esses consistem em ataques indiretos a infraestrutura, como a destruição de sistemas que sustentam a vida cotidiana de uma população, como as de energia elétrica, gás, entre outras.
Ao invés do que está delineado no item 10, aqui no 11 o que está sublinhado em termos de relevância de estudos sobre o terror é que nunca, em nenhum momento da história humana, houve sequer uma década que inexistissem trabalhos infatigáveis de pesquisadores, empurrando mais além os limites do que se conhece como ciência, inovação ou tecnologia. A guerra e a tecnologia são inseparáveis, alguns diriam. Outros, sublinhariam que a ordem e a desordem usam as mesmas tecnologias, duais o suficiente para interessar os que trabalham na segurança pública e privada e os que dela se beneficiam direta ou indiretamente. Ainda, existirão os que argumentarão a centralidade da SIGINT, OSINT, TECHINT, e demais siglas de inteligência/contrainteligência que gravitam ao redor de techné.
Antes de qualquer terror, ou após ele, vamos de poesia:
Luz antiterror, luz interior.
Havia um dia de ordem
Uma via de poesia infinita
Mas o sol se punha para a sombra
Destino previsto, noite monstruosaHavia uma alma perdida
Uma roseira queimada
Um fogo em óleo
Um edifício em chamaHavia uma cena: viela, goela, fim delas
Das pólvoras gastas em uma névoa da guerra
Duas narrativas ou infinitas, nas sinapses alheias
Inseguros caminhos e híbridas conflitividadesHavia uma via
De restauração do que foi perdido
O Terrorismo se achava vitorioso
Acima do medo estava franco sentidoHavia um natural percurso de vitória
De restaurar gargantas e rosas, primavera
Levitando em si a certeza da dúvida
Milhares de pesquisadores e inteligênciasHavia uma ordem em reconstrução
De fim do fogo fátuo em muitos lados
Eis que o caos terrífico silencia
Na rotina da vida segura de um diaHavia então a solução na curva da existência
Um repetir de sombras, uma repetir de época
Um repetir de década,
… e você, já viu esse filme?
As extremidades, vencidas?
Mais uma vez, a luz nos guie
Referências.
Kydd, A. & Walter, B. (2006). The Strategies of Terrorism. International Security, 32 (1), 49-80.
Rapoport, D. (2004). The Four Waves of Modern Terrorism. In: Cronin, A. K. & Ludes, J. M. (Eds.). Attacking terrorism: elements of a grand strategy. Georgetown University Press.

