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Segurança, Defesa e Geopolítica

O ladrão de tempo: a ameaça invisível na rotina da inteligência

Wagner Werneck (*), 01/09/2025.

Dentro do campo da inteligência, o tempo não é apenas um recurso — ele é crucial. Porém, quantas vezes ouvimos (ou dizemos) que “não temos tempo”?

O paradoxo é implacável: enquanto proclamamos essa escassez, nos encontramos distraídos em redes sociais, assistindo a vídeos curtos e fazendo pesquisas aleatórias que não têm ligação com nosso trabalho. E o mais alarmante: negligenciamos atividades simples, como exercícios físicos ou leituras pertinentes, que poderiam aprimorar nossa saúde mental e física.

Essa distração incessante se torna um desafio significativo em um setor como a inteligência em segurança pública, onde cada pormenor conta, onde a concentração e o raciocínio lógico podem significar a diferença entre prever um perigo ou ser surpreendido. Pior ainda: a ilusão de “descanso” ao se perder em conteúdos online apenas intensifica a fadiga mental. A mente permanece ativa, mas em um ciclo vicioso e improdutivo. O resultado: desempenho baixo, pouca clareza de pensamento e decisões tomadas no automático.

É nesse contexto que um outro elemento fundamental se apresenta: a transformação causada pela inteligência artificial. Tecnologias de IA estão se difundindo em diversos âmbitos da segurança pública — na intersecção de dados, reconhecimento facial, análise de redes criminosas e na previsão de comportamentos. Aqueles que trabalham nesse campo precisam, de maneira urgente, se apropriar dessas inovações. No entanto, como pretendemos nos atualizar, adquirir conhecimento e acompanhar essa evolução acelerada se continuarmos permitindo que o “ladrão de tempo” consuma nossas horas com distrações?

A atualização do conhecimento deixou de ser um diferencial e se tornou uma questão de sobrevivência profissional. A IA não esperará por ninguém. Quem não tem uma compreensão mínima de como essas ferramentas funcionam e como usá-las para apoiar investigações, análises e decisões, corre o risco de se tornar irrelevante em um ambiente em constante avanço tecnológico. Não é uma questão de se tornar programador, mas sim de interagir com as ferramentas que já estão moldando o cenário atual da segurança pública. Além disso, há o aspecto físico. Sim, o corpo se faz necessário. Um profissional de inteligência que não cuida de sua saúde, que não descansa adequadamente, que não se exercita e que permanece excessivamente tempo na frente da tela, perde o que tem de mais precioso: a habilidade de observar, interpretar e prever. O cérebro humano continua a ser a principal ferramenta da inteligência, mas precisa ser bem nutrido, com informações, descanso e movimento.

Portanto, se realmente queremos ser estratégicos, precisamos começar do básico: assumir o controle do nosso tempo. Desativar o modo automático, fechar abas desnecessárias, recusar distrações e abrir espaço para aprendizado. Estudar, caminhar, compreender sobre IA, ler artigos técnicos e experimentar novas ferramentas. Isso é o que distingue o analista que apenas realiza tarefas do profissional que antecipa o futuro.

No final, o verdadeiro ladrão de tempo não vem de fora. Ele usa nossa identidade, pega nosso telefone e responde nossas mensagens. A distinção é que ele controla como gastar o tempo e na maioria das vezes, faz escolhas ruins.

(*) Assessor de Inteligência da Secretaria de Estado da Casa Civil do Governo do Estado do Rio de Janeiro