Afinal, onde anda a prudência nas Relações Internacionais?
Por Redação DefconBR, atualizado em 24/07/2025
As Relações Internacionais como disciplina acadêmica surgiram e se consolidaram na esteira das guerras mundiais. Filósofos, cientistas políticos, historiadores e acadêmicos, testemunhas da devastação e tragédia causadas pela má condução da política internacional aliada ao desprezo pela diplomacia e negligência da segurança internacional construíram uma estrutura de pensamento para viabilizar a compreensão profunda das interações entre os estados e à busca da promoção da paz e da cooperação internacional.
Um século após os trepidantes anos 20, o mundo se encontra novamente marcado por um cenário que alia revolução tecnológica, crises globais, competição entre potências e instabilidades internas que chama a atenção para um aspecto que parece esquecido dos discursos e posicionamentos das lideranças globais: a prudência nas relações entre os estados.
O debate em torno desse conceito atravessa décadas de teoria e prática, sustentando-se sobre pilares estabelecidos por pensadores clássicos. Raymond Aron, Hans Morgenthau e, mais recentemente, Robert Putnam com seu estudo sobre a lógica dos dois níveis de atuação da política internacional pontuaram aspectos importantes sobre a relação entre estados e estadistas.
Raymond Aron e o Realismo Moderado
Raymond Aron, intelectual francês e um dos grandes intérpretes do realismo político, defendia que a política internacional é, antes de tudo, um jogo de incertezas. Para Aron, os Estados navegam em um sistema anárquico, regido pela ausência de uma autoridade central. Dessa forma, a prudência emerge como virtude fundamental dos estadistas, que, segundo ele, devem balancear entre os imperativos da moralidade, o interesse nacional e as limitações do poder.
Aron alertava para os perigos do dogmatismo e da ilusão idealistao utopismo, acreditando que decisões internacionais requerem a constante avaliação não apenas dos próprios objetivos, mas também das consequências possíveis de cada escolha. Assim, o prudente não é o indeciso, mas aquele que calcula, pondera os riscos e entende que o contexto internacional é sempre marcado pela ambiguidade. Principalmente, alertava contra a divisão dos Estados em bons e maus, em pacíficos ou belicosos, que desembocava na paz mediante a punição de uns e o triunfo de outros.
Hans Morgenthau e a Virtude da Prudência
Hans Morgenthau, outro pilar do realismo clássico, coloca a prudência como o “padrão supremo” da política. Para Morgenthau, o estadista prudente reconhece os limites do poder e da capacidade humana para prever os desdobramentos das ações, de forma que toda política de poder implica em escolhas trágicas, e a prudência emerge da necessidade de evitar excessos — seja de ambição, moralismo ou confiança cega.
No clássico “A Política entre as Nações”, Morgenthau argumenta que a prudência, mais do que qualquer princípio abstrato, deve guiar a condução da política externa. O objetivo é sempre buscar um equilíbrio entre aspirações e capacidades, minimizando riscos e reconhecendo que, em um ambiente internacional hostil, os erros de cálculo podem ser fatais.
Robert Putnam e a Lógica dos Dois Níveis
Atuando como um elo entre o cenário internacional e o doméstico, a lógica dos dois níveis desenvolvida por Robert Putnam lança uma luz sobre o imperativo da prudência. Putnam sugere que os líderes políticos atuam simultaneamente em duas arenas: uma internacional e outra doméstica. Logo, qualquer decisão de política externa precisa ser negociada não apenas com outros países, mas também com grupos internos de interesse, partidos, eleitores e outras instituições políticas.
Nesse contexto, a prudência exige ainda mais habilidade: o estadista deve calibrar suas ações para assegurar tanto a viabilidade internacional quanto o respaldo doméstico. É preciso ser cauteloso para evitar acordos externos que possam ser posteriormente inviabilizados pela oposição interna, ou posições internas rígidas demais que impeçam negociações significativas no plano internacional.
Prudência como Imperativo Contemporâneo
Em um mundo marcado por guerras híbridas, disputas tecnológicas, mudanças climáticas e tensões geopolíticas crescentes, a prudência permanece tão atual quanto nos tempos de Aron e Morgenthau. A complexidade dos tabuleiros em que atuam hoje os líderes das grandes nações deveriam se inspirar pelas lições desses grandes teóricos do passado, navegando entre o idealismo e o pragmatismo, entre as pressões externas e as demandas internas.
O legado desses pensadores, somado à análise de Putnam, evidencia que a prudência não significa paralisia estratégica, mas uma política atenta aos riscos, aos limites do poder e à multiplicidade de interesses em jogo.
Ao fundo do cenário atual das relações entre Estados, Presidentes e Primeiros-MInistros, ecoam as palavras do estadista Winston Churchill: a razão para se manter relações diplomáticas não reside na concessão de elogios, mas para se assegurar uma conveniência.

