Kissinger, a Coreia de 1950 e lições para Taiwan
Por Redação DefconBR, 28 de maio de 2023.
Para entender o que pode acontecer entre os Estados Unidos e a China em relação a Taiwan é preciso antes entender o excepcionalismo americano e o posicionamento em relação à China na Guerra da Coreia.
E ninguém narra melhor essa relação que o ex-conselheiro de estado da Presidência dos Estados Unidos desde Eisenhower até Gerald Ford: Henry Kissinger, que acaba de completar cem anos e publicou “Diplomacia”.
Woodrow Wilson e o Excepcionalismo Americano
Para Kissinger, malgrado a Doutrina Monroe, de 1823, que tinha muito da velha política exterior europeia, foi Woodrow Wilson quem moldou o pensamento americano em política externa.
Contrariando a visão isolacionista característica dos EUA até então, Wilson pregava a aplicação universal dos valores americanos e sua propagação, decorrentes da crença nacional de que o caráter excepcional do povo americano estava na prática e na propagação da liberdade.
Foi dessa forma, exibindo um governo devotado à paz e à liberdade, que Wilson conduziu a América isolacionista à Primeira Guerra Mundial.
Seu antecessor, Theodore Roosevelt, havia tentado antes convencer o país da necessidade de entrar na guerra. Mas seus argumentos pareciam-se demais com a política externa das velhas potências europeias e os americanos recusaram-se a ingressar em mais uma guerra da velha Europa.

“Há um só padrão possível de solucionar controvérsias entre os Estados Unidos e outras nações, composto de dois elementos: nossa honra e nossa obrigação com a paz do mundo”.
Woodrow Wilson
Excepcionalismo e Contenção na Coreia
Essa postura de good cop global foi a tônica da política de contenção que vigorou após a II Guerra Mundial e que teve impacto preponderante no desenrolar da Guerra da Coreia.
O avanço norte-coreano sobre o paralelo 38 foi para os americanos a prova de que o avanço comunista na Ásia não iria se restringir à revolução chinesa de 1949 e o Presidente Truman organizou a resistência à invasão como decisão mundial no termos wilsonianos de liberdade x ditadura.
Foi tentando demonstrar força contra a China comunista que os EUA juntaram à declaração do envio de tropas à Coreia uma ordem à Sétima Esquadra para proteger Taiwan, então também conhecida pelo seu nome português, Formosa.
Mao Tsé-tung interpretou as ações dos EUA como medo. Ao tentar proteger Taiwan, os EUA reconheciam a China como oponente geopolítico legítimo e seus interesses na ilha.
A Opção Política Anula a Supremacia Militar
A resposta militar ao avanço comunista na Coreia veio do general MacArthur, que a exemplo da II GM, desembarcou em Inchon, 320 km atrás das linhas inimigas, cortando as linhas de suprimento e tornando o exército norte-coreano inócuo.
Ao invés de permitir que os resultados da guerra fossem ditados pela expressão militar, Truman buscou retornar ao staus quo ante e demitiu MacArthur que era favorável à guerra total em detrimento do impasse como política nacional.
A menor pressão militar permitiu à China estabelecer uma estratégia de atrito, fortificar-se em posições inexpugnáveis e tornar a Coreia uma guerra grande demais para a política dos EUA e pequena demais para sua doutrina estratégica.
Fonte: Diplomacia, Henry Kissinger